Fórum Inativo!

Atualmente Lodoss se encontra inativo. Saiba mais clicando aqui.










Vagas Ocupadas / Vagas Totais
-- / 25

Fórum Inativo!

Saiba Mais
Quadro de Avisos

>Dizem as más línguas que o anão Rookar, que fica no Porto Rangestaca, está procurando por mercenários corajosos - ou loucos - que estejam afim de sujar as mãos com trabalhos "irregulares". Paga-se bem.

> Há rumores sobre movimentações estranhas próximas aos Rochedos Tempestuosos. Alguns dizem que lá fica a Gruta dos Ladrões, lar de uma ordem secreta. Palavra de goblin!

> Se quer dinheiro rápido, precisa ser rápido também! O Corcel Expresso está contratando aventureiros corajosos para fazer entregas perigosas. Por conta da demanda, os pagamentos aumentaram!

> Honra e glória! Abre-se a nova temporada da Arena de Calm! Guerreiros e bravos de toda a ilha reúnem-se para este evento acirrado. Façam suas apostas ou tente sua sorte em um dos eventos mais intensos de toda ilha!




Quer continuar ouvindo as trilhas enquanto navega pelo fórum? Clique no botão acima!

Os diários de Katsuo

Ir em baixo

Os diários de Katsuo

Mensagem por Katsuo em Sab Ago 03, 2013 11:04 pm

Inspirado pela história do meu personagem e também pela fila de espera, resolvi desenvolver um pouco mais o passado do Kat. A ideia é tornar tudo uma espécie de diário, com vários capítulos que não necessariamente seguirão uma ordem cronológica.

Então... aí está o primeiro! *-* Gostei bastante de escrever e de formatar, embora ache um saco deixar tudo do jeito que eu quero. Aff! Sempre fica uma tag aberta. Se alguém notar alguma, por favor, me avise. Pode ser que esteja faltando ou em lugar errado também. Da mesma forma, erros de português, embora eu tenha revisado, podem haver. Não me incomodo muito em receber correções. Sugestões são bem vindas , elogios e até críticas, mas por PM, por favor. Vai ficar mais bonitinho depois se eu resolver continuar os próximos capítulos.

É isso aí. Espero que gostem. *-*




FORTALEZA DE FERRO E DOR: O PODEROSO LORDE BELIAL


Desde muito longe, nas Planícies do Conflito, é possível enchergar a grandeza da Cidadela de Ferro. Trata-se de uma construção colossal, senão até titânica, feita unicamente de ferro tão puro como não há igual em nenhum outro canto do universo. Como almejando perfurar o lençol macio de nuvens cinza-chumbo, fronteira final daquele mundo, suas torres mais altas apontam para o céu, ameaçadoras, na forma de lanças afiadas e inflamadas em vermelho, uma vez que quanto mais alto se vai nesse céu vazio e sem esperança, mais quente fica, resultado este do calor que imana dos rios de lava ardente ou talvez de uma fonte desconhecida por detrás do véu. Sendo assim, a visão completa de sua magnificência deslumbra: suas pontas são vermelho-alaranjadas, descendo e escurecendo para o carmim e até o negro mais profundo, como o do Abismo. Suas muralhas são tão grossas que seria necessário caminhar por minutos apenas para transpassá-las. Os únicos detalhes exibidos nessa estrutura são a imensa quantidade de espinhos que adorna cada torre, cada portão, cada ângulo. São como os de uma erva daninha e emitem apenas uma mensagem de advertência sobre o perigo que reside lá dentro. E há também os emparedados, dos quais lhes contarei a seguir.

Quem construiu essa fortaleza não foi Lorde Belial ele mesmo. Ao invés disso, ele fez uso de escravos. Os Gigantes Infernais foram os escolhidos. Essas são criaturas de grande tamanho e resistência, que podem sofrer de danos muito severos, ter sua carne e ossos expostos, e ainda assim continuarem vivos. São tão fortes que poderiam carregar cem vezes o seu peso nas costas, dizem, sem sequer se curvar. Entretanto, são tão desporvidos de intelecto que são incapazes de rebelar-se. São como gado. Completamente sobre o comando de quem quiser as controlar. Pobres escravos! Comumente empregados nas batalhas como meio de transporte das máquinas e cargas mais pesadas, pois são tão lentos que sequer são capazes de lutar. Sua forma é humanóide, sem chifres ou asas. Seu corpo é magro, de forma que seus ossos são todos visíveis, até mesmo os do crânio.

Conta a lenda que, antes dos Lordes Demoníacos, esses Gigantes governavam por todo o inferno, até que uma terrível maldição recaiu sobre eles e os tornanou incapazes de pensar ou falar, nulos como os corpos vazios e errantes de um zumbi sem alma. Dizem que essas criaturas gigantescas construiram a fortaleza do ferro derretido que corre nos rios de magma incandescente. Na verdade muitos deles ainda são vistos por lá, na construção, emparedados vivos, em eterna angústia e sofrimento. São o retrato da soberania do Lorde sobre o Inferno. Aos pés de sua fortaleza, muitos são os corpos aprisionados. A medida que se sobre em sua visão, um menor número é visto. Isso faz pensar sobre o quanto isso acontece por acidente ou por perversa intensão.

Em sua volta, a miséria e a fome se alastram na forma de uma gigantesca cidade feita de retalhos e placas do mesmo metal, empilhados uns sobre os outros, confusa e desorientadamente. As ruas são estreitas, sempre sujas e sempre cheias. O barulho é infernal, mil vezes pior que o som das batalhas do Conflito. Lutas e morte as tomam por completo, de forma que não é incomum ver demônios brigando e devorando uns aos outros, subjugando, massacrando ou mesmo roubando. Não existe lei. Não existe domínio, com exceção do exército, ou como é mais conhecido por nós: as legiões de Lorde Belial. Do lado de fora essa é  classe dominante: os mais fortes; os mais hábeis. Mas nós, de longe, não somos a maioria. Do contrário: a maior parte ali são meros comensais a viver à sombra do supremo Lorde, alimentando-se dos restos e migalhas que caem, por acidente, de sua boca e de suas presas afiadas.

A vida neste lugar não é fácil. Muito me fazia pensar sobre o quanto talvez fosse mais seguro habitar o Desolado, cercado por carniçais e bestiais desprovidos de qualquer pensamento senão a fúria e a fome descontrolada. Assim como na guerra, não se podia descançar um segundo sequer, com o risco de acabar servindo de alimento. Tinha-se de lutar tanto quanto lá fora. A não ser em raras exceções, quando nos reuníamos para comemorar uma vitória. Quando isso acontecia, geralmente tínhamos a presença de um Legado, que eram os comandantes supremos das legiões, depois do Lorde, é claro.

Havia, porém, mais uma classe que se destacava entre os lacaios de Belial: a composta pelos íncubus e as súcubus. Raramente vistos em campo de batalha, eram desejáveis e podiam circular por qualquer ambiente, desde o interior da fortaleza quanto pelo seu exterior. Seu poder de sedução lhes rendia lugar especial onde quer que fossem. E é aí que minha história começa a ficar interessante.

Na Trégua que se sucedia, estávamos reunidos bebendo e comemorando os feitos em batalha. Meu companheiro, Ian, me cutucou.

[Katsuo] - O que é?! Não está satisfeito com sua cabeça ainda no lugar? - Eu disse.

[Ian] - Tch! Nada disso. Venha cá... - me puxou para mais perto. Eu cedi, embora em desconfiança. - Acabo de saber que aqui ao lado vive uma súcubus. Que acha da gente ir lá dar uma conferida? Tenho certeza que nós três poderíamos pensar numa brincadeira bem interessante! Hehehehe! - Expeliu as palavras que me soaram tão sujas quanto os restos de alimentos que lhe escapavam da boca. O tom foi de sussurro.

Minha descendência sempre me rendia esse tipo de convite. Entretanto, eu já sabia daquela súcubus da qual ele falava. Ela tinha uma história em particular. E eu, um interesse. Não havia tido coragem ainda, apenas. Acho que estava evitando me confrontar com alguma verdade... talvez. Não sei dizer. Ou simplesmente beber fosse muito melhor. Não havia nada que fôssemos fazer lá fora que não acabasse acontecendo ali dentro, de qualquer maneira. Mas eu topei. Algo dentro de mim me impulsionou a isso. Seria esse o sopro do destino?

[Katsuo] - Arrgh! Ian, seu safado! Você só pensa nisso. E acha que eu não reparei nesse seu olhar para cima de mim?! Até mesmo em batalha. Tch! Você é uma vergonha. Vai acabar perdendo a cabeça, e eu falo literalmente!

[Ian] - Hahahaha! - E nós dois despejamos boas gargalhas antes de sair.

Depois disso, seguimos sem que ninguém notasse. Estavam todos ocupados demais gritando, brigando e contando suas histórias, disputando a verdade entre si, cada um com a sua mentira, se tornando maior, mais poderoso, berrando os sucessos da batalha e esfregando na cara uns dos outros os fracassos. Não parariam até cair. Era divertido. Ian seguiu na frente. Os becos da cidade eram escuros. Não eram como nas proximidades dos grandes rios de magama ou mesmo qualquer lugar aberto. As construções mais altas esmagavam as mais baixas, as recobriam e escondiam da amargura daquele mundo ou as enterravam ainda mais em sua miséria, como uma subcamada. Era numa daquelas entradas, quase um buraco, que vivia a demonesa que Ian desejava ardentemente. Sinceramente, não sei como fui me deixar levar por aquele tolo. Sabia que aquilo só poderia dar errado.

Depois de avançar à moradia, de invadir abruptamente sem sequer dar um sinal, chegamos finalmente aonde ela se encontrava. Mas ela não era bela. Não como as outras. De alguma forma, acabou com uma grande cicatriz que lhe cobria quase o rosto todo. Para alguém de sua espécie, uma vergonha; uma mancha negra que para sempre a havia fadado ao isolamento e a soldados nojentos ou à plebe asquerosa daquela cidade. Não nos comovíamos com seu olhar triste, entretanto. Sua face queimada era medonha. Dava pra ver os filetes dos músculos por trás da pele tão fina quanto um papel. Quem fez aquilo era um dos grandes, pois  a regeneração dela normalmente seria capaz de se curar sem deixar marcas. Seu nome era Magdah, o que ela nos revelou em certa cortezia, ignorando nossa brutalidade.

[Ian] - Hahaha! Venha cá, sua asquerosa! - Gritava Ian.

[Magdah] - Soldados imundos! - Arqueou suas asas imponentes, porém fracas e vulneráveis. - Sim, imundos! Posso realizar todos os seus desejos. Possos tornar realidade tudo de mais profano que puderem devorar com sua ânsia por prazer! Mas, para isso terão de me servir primeiro. Ou então me terão tão fria quanto as paredes dessa maldita pocilga fétida que sou obrigada a suportar!!! Então? O que preferem?

Ian, sem relutar, iria cair na primeira das opções. Na verdade, ele já partia para cima dela. Eu, entretanto, sabendo que ela já havia sido parte do harém de Lorde Belial, tinha outro interesse. Tinha curiosidade muito mais profunda sobre sua história. Talvez ela soubesse... sim. Talvez conhecesse a única pessoa que eu precisava encontrar em todo o mundo. Mesmo que fosse apenas para vê-la uma única vez. Não importa. Com certeza ela nem me reconheceria. Mas eu gostaria de saber como ela é. Ao menos isso. Para que sua imagem estivesse em minha mente no momento que eu partisse, quando fosse esmagado, quebrado, mutilado, por fim em batalha. O final que eu sempre imaginei que encontraria, mais cedo ou mais tarde. Então eu segurei no ombro do meu companheiro, ao lado de um espinho enorme que ele tinha e que adornava cada um de seus lados.

[Katsuo] - Espere! Para que a pressa, se as coisas podem ser bem melhores? Pense: só mais um pouco, e poderemos ter um momento que valerá por nossas vidas! Vamos ouvir o que ela tem a dizer . - Eu torcia para que ele aceitasse. De outra forma, esmagaria sua cabeça ali mesmo.

Ele aceitou, mas apenas depois de um momento de silêncio, uma cara feia e torcida e alguns resmungos. Fez isso porque seu maior interesse não era Magdah, mas sim a mim. Eu sabia disso. Não importava. Eu o mataria de qualquer jeito ao final de nossa jornada. Ele era um porco imundo e cheirava como a carcaça de um abutre putrefato e decadente.

[Magdah] - Hmmm... Muito sábios, senhores. Vejo que o bonitinho ali faz bom uso de sua metade inteligente e íncubus! Huhuhu! - Quando ela disse isso, se referia à tão famosa astúcia da classe que podia manipular, diziam, até mesmo Belial. Sua voz era melosa, doce, como uma canção de despedida. Cada tom, cada nota, inspirava os desejos mais insanos. Era difícil se conter. Sua face era deformada, mas seu corpo ainda estava intacto. Era como uma maldição do paraíso.

Um breve silêncio se seguiu. Em seguida, a dama escarlate do inferno nos explicou:

[Magdah] - Sua missão será simples, sim, muito simples! Huhuhu! Basta-me que levem o conteúdo desta caixa, mas não abram! Eu aviso! Não abram, ou vão se arrepender! Não interessa a dois imundos como vocês o que há aqui dentro. Se abrirem, não digam que não avisei. Pois bem, levem-na até a cozinha de Lorde Belial. Quando o sinal for dado e todos os lacaios partirem, vocês terão pouco, muito pouco tempo, mas será o suficiente para despejarem dentro de um caldeirão qualquer. Apenas isso! Façam e serão recompensados. Hmmmm... tenho certeza que serão! Vou assegurar que nunca mais esqueçam! Huhuhu!

[Ian] - Sua bruxa louca! - Exclamou meu companheiro. - A cozinha de Belial? Nem com mil legiões! Você sabe que é impossível adentrar à Fortaleza e está nos mandando numa missão suicída! Acha que somos tão burros assim? - E já foi sacando sua espada para decepar-lhe a cabeça e talvez a tornar mais agradável antes de usá-la. Eu apenas assisti, afinal, estava tão revoltado quanto ele por aquela chula tentativa que se parecia.

[Magdah] - Espere! Espere! Eu não terminei de falar. Seus tolos. Eu conheço um caminho, é claro. E ele está bem aqui! - Puxou, então, uma pilha de tralhas de uma parede que se descolou, revelando uma passagem e exalando um cheiro tão ruim quanto o de mil abutres do inferno. - É o esgoto. Poucos sabem que ele existe. Além disso, tenho um mapa que lhes levará direto ao local certo. Como disse, basta que sigam o que eu disser e nada sairá errado. Eu PRECISO disso! Aquela imunda tem que pagar por isso! - Pôs a mão sobre o rosto. - A qualquer preço... - Sussurrou.

Confesso que aquela passagem foi uma surpresa. Seria possível confiar nela? Talvez não. Mas a possibilidade de entrar na Fortaleza... talvez... talvez eu pudesse! Então conversamos eu e Ian em reservado por um segundo. Penso que Magdah tenha ouvido tudo, afinal não somos o tipo que fica cochichando pelos cantos como um costume. Após breves debates, decidimos encarar. Ele estava fascinado com a ideia de ter uma súcubo para si. Eu tinha planos próprios. E, além disso, que risco poderia haver? Afinal, não importa onde, sempre e sempre haveria alguém tentando nos devorar, inclemente, até o dia em que sucumbíssemos. Portanto, não haveria nada lá que fosse diferente do lado de fora. Por isso e pela emoção de estar fora dos olhares dos austerks centuriões, nós adentramos à passagem fétida carregando a pequena caixinha de metal que tinha em si pequenos e muitos furinhos. Não dava para ver, mesmo assim, o que tinha lá dentro. Ficamos tentados a abrir, mas não o fizemos não sei por quê.

As passagens eram estreitas, às vezes. Por outras, tão confusas que não tínhamos certeza se estávamos seguindo o mapa corretamente. Nos perder ali significaria nos perder para sempre. Todos conheciam a fama daquele labirindo. Ou pelo menos os que sabiam a cerca do esgoto. Ademais, haviam muitas lendas que o circundavam. Diziam que Belial tinha um guardião. Talvez o tivesse. E talvez ele estivesse a nossa espreita, num jogo sádico de gato e rato a espera do momento de atacar ou, quem sabe, do momento em que nós mesmos caíssemos sem que ele precisasse fazer nada. Quem sabe? A verdade é que aquele lugar era horrível. O cheiro ardia-me as narinas. A lama ou seja lá o que fosse me cobria até o joelho e enchia minha bota. Acho que o fedor nunca mais a deixou. Talvez ainda não tenha saído da minha pele. Haviam ossos e pilhas de partes irreconhecíveis. Me perguntava a todo momento a que tipo de criatura pertenciam. Nossa única iluminação era uma pequena orbe mágica que Magdah havia preparado. Talvez fosse melhor assim: não podendo ver.

[Katsuo] - Você está segurando isso errado - Disse, irritado.

[Ian] - Fique quieto! Se está errado, por que não me disse antes?! - Retrucou Ian.

[Katsuo] - Você é tão burro! Belial deveria usá-lo para limpar a bunda de sua montaria! Mas acho que nem isso você faria direito.

[Ian] - MALDITO! - Ian sacou sua espada.

Iniciamos um pequeno confronto, assim que ele partiu com velocidade para cima de mim. Seria, por fim, minha chance de cortar aquele porco nojento. Saquei minhas armas tão rápido que fico em dúvida, às vezes, sobre que sacou primeiro. Me defendi e em seguida investi contra ele. Usei ambas as espadas, juntas num golpe só. Ele era fraco. O peso da minha investida o fez recuar. E de novo. E de novo. Até que ele estava de costas à parede. Morreria ali mesmo, naquele lugar. Eu preferia mil vezes a morte num campo de batalha e o cheiro dos cadáveres em decomposição àquilo ali. Mas a escolha foi dele. Entretanto, não foi isso que se sucedeu... O que aconteceu foi que nossa iluminação caiu! Sim! E afundou no excremento líquido. Ficamos no escuro completo que nos abraçava e atormentava, como um pesadelo do qual não se pode escapar.

[Katsuo] - Ahhh! Eu disse! Nem para limpar a bunda das montarias! - Gritei enfurecido. Por mais que eu tentasse cortá-lo, não podia localizar aquele corpo asqueroso. O mesmo valia por ele.

[Ian] - Shhhh! - Fez ele. No entanto, não adiantou em nada. - FIQUE CALADO! - Ian gritou com todas as forças e de forma que fez suas palavras ecoarem por vezes seguidas naqueles túneis. Minha surpresa foi tanta que me calei por um instante.

...


Eu já estava pronto para começar a berrar novamente, quando ouvi alguma coisa. Nós não estávamos sós. Fiquei paralizado, então. Mais barulho foi ouvido. Não sabia o que era, mas minha intuição gritava para que tivesse cuidado.

[Katsuo] - Faça algo de útil e ache a droga da luz! - Falei o mais baixo que pude, mas em tom severo, fazendo minha garganta arder.

Eu pude escutar o barulho que Ian fazia ao vasculhar o esgoto à procura da orbe. Eu acho que ele se arrependeria para sempre daquilo. Me dava nojo só de pensar, mesmo que estivesse acostumado a ficar recoberto por vísceras de inimigos. O som lembrava algo viscoso... pegajoso...

[Ian] - Aqui! - E ele imediatamente ergueu.

No início, pareciam sombras perpassando pela própria sujeita que recobria a esfera, retorcidas e disformes. Entretanto, à medida que fora limpando e nossos olhos foram se acostumando à iluminação, a verdade aterrorizadora foi ficando mais e mais evidente, até o ponto em que estivesse jogada em nossa cara num destino atroz e inevitável. Eu nem saberia definir o que era... Via carne, muita carne, uma pilha enorme dela, com fibras de músculos e vísceras, intercalada com olhos, ossos, bocas, cabeças, braços e todas as partes de um corpo que se possa imaginar. Entretanto, não dava para dizer onde era o início ou o fim ou mesmo dar uma ordem para a forma como cada pedaço era atrelado ao outro. Simplesmente não sabia o que era aquilo! Era horrível! Nunca havia visto nada parecido. Mesmo os demônios das hordas de Azmodeus não chegavam aos pés daquela coisa bizarra e grotesca. Ian, num impulso completamente esperado de um soldado, partiu num ataque e arrancou-lhe a cabeça! O problema é que haviam outras e outras e outras, e mais uma dúzia delas surgindo do local onde ele desferira o golpe. Meu próximo impulso, também completamente esperado, foi o da fuga. O daquilo foi nos atacar.



[Katsuo] - CORRE! - Gritei quando já sentia minhas pernas inundadas pelo sangue e pela energia.

Corremos juntos. Descobrimos, entretanto, que aquela coisa não era a única. O lugar estava infestado! Seus braços se extendiam, quase se rasgando, às vezes se desprendendo do corpo e formando uma nova criatura. Nós às cortávamos, quando de cara com uma, mas os golpes não pareciam surtir efeito algum. Por sorte, eram muito lentas, o que nos garantia certa vantagem.

[Ian] - Pega! - Gritou Ian, me jogando a orbe que eu habilmente segurei.

Então ele começou a lutar, abrindo caminho por onde eu segui. Ele ficou. Eu poderia voltar e abrir uma brecha por entre as costas da coisa, permitindo que ele a atravessasse. Mas... eu sempre quis vê-lo agonizar! Era a oportunidade. E eu nem precisaria sujar as minhas mãos. Ouvi seus gritos por muitos metros a frente. Ele me espraguejava enquanto a mescla de mandíbulas, olhos e ossos rasgava sua carne. Eu quase podia ouvir o suave tom daquela melodia. O problema é que não podia parar com o risco de me tornar o próximo.

Corri por tantos túneis que meu fôlego se perdeu. O destino então sorriu para mim, como obra do próprio diabo, e eu pude ver uma abertura bem à frente. Era tão pequena que pensei que meu corpo não passaria por ela. Comprimi ao máximo minhas costelas, me revirei e retorci e por fim consegui! Por ainda maior ironia, eu estava na cozinha. Não havia ninguém lá, com exceção do último balofo recoberto de bolhas purolentas que acabava de sair.

[Katsuo] - UFF! - Suspirei a salvo, enfim.

Quando terminei de respirar pude dar alguma atenção ao ambiente. Nossa! Era incrível! Completamente diferente do espaço lá fora. Havia alimento de tantos tipos que eu nunca havia visto! O aroma era delicioso, mesmo misturado com o da sujeira do meu corpo. O chão , revestido em alabastro, era tão branco que daria inveja às asas de um anjo.  As paredes eram adornadas em florais com ouro que reluzia tanto quanto os raios do sol nos dias de verão. Haviam também orbes enormes que flutuavam próximos ao teto, que deveria ficar a mais de cinco metros de altura, e que emitiam uma luz intensa e cálida que acariciava minha face de uma forma compeltamente diferente do que o calor do magma ardente. Era um mundo a parte protegido por toneladas e toneladas de muralhas de ferro bruto, escuro e sem vida.

A caixa que Magdah havia me entregado ainda estava em minhas mãos. Eu não devia nada a ela. Também não tinha qualquer interesse em possui-la da forma que Ian queria. Mesmo assim, não sei por que, a joguei em uma panela qualquer. Talvez só quisesse me livrar. Comi algumas coisas depois. Estava faminto. Tudo era tão delicioso e havia em tão grande quantidade que certamente não iriam notar. No forno, haviam alguns pequenos demônios, como fetos ainda vivos, mas que assavam e terminavam seus últimos gemidos. Pareciam igualmente deliciosos! Mas não os toquei.

Minha missão havia sido concluída. Entretanto, não minha missão verdadeira. Eu poderia voltar. Pensei nisso. Mas não podia. Havia chegado tão longe. Minhas pernas relutaram, mas eu segui vencedor. Empurrei a porta dourada e maciça. Era muito pesada, entretanto completamente silenciosa. O corredor que se desvelou a frente era imenso! Dez ou vinte vezes mais longo que a cozinha que, de longe, era o cômodo maior que eu já havia visto em toda minha miserável existência. Não havia ninguém! Uma alma sequer. Então eu segui, e segui, por um labirinto interminável de corredores e escadas, sobre tapetes vermelhos tão macios que faziam meus pés regoziarem. Haviam algumas armaduras negras dispostas, às vezes. No início, pensei que eram guardas. Mas estavam todas vazias, como a sensação que todo aquele lugar me deixava no peito.

Por fim, cheguei a um corredor que era muito mais largo que os anteriores e cujas portas eram igualmente maiores e todas duplas. Parecia ser um lugar importante. Haviam muitas armaduras ali também, negras, polidas de tal maneira que era possível ver cada detalhe de minha  da expressão decadente estampada em minha face demoníaca. Duas estavam em cada acesso, como se guardassem com suas ausentes vidas o que existia por trás de cada abertura. Observei primeiro. Dei uns passos em seguida, ainda tímido, até adentrar por completo o ambiente. Segui rápido, então, mas cauteloso. Ela só podia estar por perto!

Foi aí que ouvi um passo. Seu som foi como o de um trovão dentro de minha cabeça. Eu caí imediatamente, arrastado para o solo por uma corrente invisível que fazia pesar mil vezes a gravidade. Meu corpo deixava de responder, como se todo aquele ferro usado para construir a maldita fortaleza estivesse sobre minhas costas. Mal podia respirar. Senti meu eu inteiro tremer, como o tremelear apavorado da chama de uma vela ante o fim de sua vida. Parecia que eu, a qualquer instante, explodiria. Ou melhor, como se um vento ácido fosse corroer e banir para sempre minha infame existência. Havia uma fonte para isso. Num esforço titânico, ergui minhas orbes azuis para cima e mirei o demônio que se colocava à minha frente. Sua postura era imponente, expondo minha miséria e insignificância frente à sua infinita grandeza. Ainda que minha visão estivesse prejudicada, que até mesmo meus olhos receassem perante a magnificência daquele ser, o que eu vi, talvez em devaneio, jamais se apagará da minha mente: os cabelos mais negros que o Abismo, a roupa adornada com a platina angelical, o par de asas amputadas em suas costas e a garra ardente que fulgorava em vermelho tão intenso quanto o do sangue que latejava na minha cabeça.  Seus olhos eram intensos como os astros celestes que não existem no meu mundo. Seria Lorde Belial? Jamais ouvi falar sobre sua aparência. Talvez o fosse. Ou talvez fosse um mero Legado. Ainda assim, foi o ser mais impressionante que eu fui capaz de fitar por toda minha medíocre existência.



Senti meus últimos suspiros saindo por entre minha garganta. Minh'alma abandonava meu corpo que se largava flácido ao chão, por fim descansando. Então ela veio. Seus cabelos eram tão brancos quanto o piso ao qual eu me encontrava e lembravam os meus próprios. Seu aspecto era frágil, sensível e doce, como a candura dos sonhos que existem unicamente para martirizar nossa existência cruel. Seu olhar escarlate me fitou com um sentimento que eu nunca havia visto antes. Demorei muito tempo para poder defini-lo. Ele se chama piedade.

A musa de asas pequenas e delicadas tocou o senhor do inferno. Acho que trocaram algumas palavras, mas elas não chegaram até mim ou que então soaram como o estouro de centenas de hordas. Por fim, lembro-me de acordar de volta naquela cozinha com muitos servos enormes e obesos que trabalhavam, picavam, ferviam e assavam a mais ampla variedade de pequenos demônios. Ela ainda olhava para mim com a mesma expressão. Então suaves palavras escorreram por entre seus finos lábios rosados, tão singelas quanto as flores da primavera:

[???] - Você teve sorte... Vá. Não volte mais...



[Katsuo] - Obrigado...

Eu parti sem pensar duas vezes. Os servos sequer notaram minha presença. Eles não tinham olhos. O caminho no qual me encontrava era um velho conhecido: os esgotos. Sem o mapa, eu deveria percorrê-lo às cegas, com o receio de que havia alguém a quem eu ainda deveria me encontrar.

Corri sem rumo, completamente perdido. Pensei que jamais deixaria aquele lugar. Por sorte, talvez, não me deparei com criatura nenhuma. Acabei por encontrar uma saída. Nem sei quanto tempo levou. O lugar me era conhecido: um amplo túnel que desaguava seus dejetos num rio de lava borbulhante. Ficava um pouco longe da cidade, mas nós, guerreiros, comumente marchávamos por lá no caminho para as Planícies do Conflito. Eu não podia acreditar. A missão impossível havia sido concluída? Para minha infelicidade esta ainda não era uma verdade, o que se fez escrachar ante a minha face e desiludir-me quando ele apareceu: estava muito, muito maior e completamente deformado. Sua pele ameaçava se abrir e despejar seu conteúdo que se revirava em seu interior. Em suas costas estava um amontoado enorme de faces, membros e espinhos, como os das coisas que nos atacaram. Sua boca aberta exibia uma enorme língua que gotejava sua saliva repugnante. Era Ian!



[Katsuo] - Meu companheiro... O que aconteceu com você? Nunca o vi melhor!

A ira que o corrompia já existia independente de minha provocação, do contrário talvez não a tivesse feito. Era inevitável: ele iria me atacar. Iria se vingar. Ou ao menos tentaria.

[Ian] - Gwaaar!!! - Ele apenas gemeu, incapaz de pronunciar uma palavra naquele estado. Em seguida investiu contra mim, mas meio desnorteado. Eu desviei com certa facilidade e então ele deu de fuças contra a parede. Todos aqueles rostos em suas costas, ou ao menos os que possuiam olhos, me fitavam famintos.

[Katsuo] - Tch! Por que tanta raiva, amig...!!!

Ele imediatamente, antes que eu terminasse, devolveu um golpe com um dos braços e me acertou em cheio. Senti minhas costelas estalarem e um de meus pulmões se encher do meu próprio sangue que depois espirrou pela minha boca e manchou meu rosto com seu tom carminado.

[Katsuo] - Agh! - Eu caí, mas com sorte onde não havia líquido para me afogar. Eu detestaria ter que engolir um pingo sequer daquela coisa. Ian avançou novamente e uniu ambas as mãos bem no alto para em seguida derrubá-las unidas contra meu corpo, como um martelo de guerra. O impacto me despedaçaria! Mas eu consegui rolar por baixo dele e golpear com minhas espadas por entre suas pernas. Ah! Eu sempre quis fazer aquilo! Quando ele se virou eu arremecei a orbe que Magdah havia nos dado com toda a força que me restava. Ele a engoliu com uma enorme fissura repleta de dentes afiados que se abriu então no seu peito. Aquilo me deixou perplexo!

Ian estava muito mais forte. Eu não poderia conter o mais sutil de seus golpes. Então minha estratégia foi me esquivar. Inspirado pela dor que se produzia no meu peito com cada movimento, eu o golpeava. O fiz várias vezes, chegando até a arrancar-lhe um dos membros, no caso, o braço direito. Ainda assim, ele não parava. Por mais profundo que eu tocasse com minhas lâminas geladas e sedentas, ele continuava. Eu tive a impressão que seria impossível vencê-lo.

[Katsuo] - Seu monstro maldito!

Me abaixei, esquivando outro golpe. Não aguentaria ficar daquele jeito para sempre. Tive então uma ideia: o faria cair no fogo líquido! Não haveria como resistir. Parei frente à saída do túnel e esperei sua investida. Quando ele veio, fui rápido em sair da frente, mas um tentáculo horroroso emergiu de suas costas e me agarrou! Recoberto com muco, me apertou tão forte que todo ar do meu pulmão foi imediatamente expelido junto a um gemido curto e abafado. Ian então, em seu último traço de consciência, aproximou-me de sua face e me lambeu com aquela língua que me causava repulso e fazia meu estômago embrulhar, quase expulsando as delícias que devorei na cozinha do Lorde. Me lambeu com tamanha brutalidade que pensei que iria penetrar o meu corpo naquele instante. Então ele aliviou o abraço que me fazia me devolvendo o fôlego.

[Katsuo] - AAHHH! EU ME RECUSO A FAZER PARTE DE VOCÊ!

Então eu cravei minha espada em sua barriga. Embora minha experiência dissesse apenas que aquele esforço seria completamente em vão, eu não poderia simplesmente ser engolido daquela forma sem dar o mínimo de trabalho. A dor que eu desejei causar, entretanto, não foi o menor incômodo. Ian deslocou sua mandíbula, então, revelando uma garganta ampla recoberta por espinhos brancos que se moviam para cima e para baixo, impacientes para rasgar minha carne. Então o inacreditável aconteceu: um raio intenso de luz fez passagem pela fissura que eu acabava de fazer em sua barriga. Eu havia atingido o orbe! Este, por sua vez, continha uma imensa quantidade de energia que agora era liberada no interior do meu grotesco companheiro. Eu senti o cheiro de carne queimada. Se não estivesse plenamente satisfeito, talvez me fosse agradável como a lembrança de uma boa refeição. Ele me soltou, conforme seu tentáculo dissolvia. Ian cambaleou por alguns passos e então despencou do precipício flamejante. Caído ao chão frente à borda do mesmo eu apenas o vi cair. Ele olhava bem dentro dos meus olhos. Parecia em paz, como um guerreiro normalmente se apresenta em seu último momento, talvez o melhor de sua vida. Ele desintegrou antes mesmo de tocar as chamas. A explosão de luz que se sucedeu foi tão intensa que me cegou por instantes.

Quanto a mim... eu retornei à cidade, para minha velha vida sem sentido. Estava grato por ter tido um companheiro que havia me proporcionado uma aventura tão interessante e uma batalha tão intensa. Sabia que ele, no Esquecimento, também estaria. Sobre a súcubus? Nunca mais a vi. Mas tive notícias de uma outra que acabou expulsa do harém do Lorde e teve o mesmo fim, com uma cicatriz ainda pior. Me pergunto se tem algo a ver com aquela caixa...

_________________
Katsuo | Força:[E] | Energia:[F] | Agilidade:[E] | Destreza:[C] | Vigor:[B]
M.O.: 0 | Ficha
avatar
Katsuo

Pontos de Medalhas : 100
Mensagens : 132
Idade : 29
Localização : Arena Ossorange

Ficha Secundária
Título:
Lvl: 8
Raça: Demônio

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Os diários de Katsuo

Mensagem por Katsuo em Dom Ago 18, 2013 1:25 am

Capítulo 2 novinho em folha! \o/




O TRAIÇOEIRO LORDE ASMODEUS


Na batalha do Conflito Eterno, Lorde Asmodeus sempre fora o lado mais fraco. Enquanto Lorde Belial possuía um exército brutal, forte e intenso, Asmodeus contava com a astúcia, a magia, a trapaça e enganação como seus métodos prediletos e era capaz de sobrepujar seu oponente unicamente através do uso da estratégia. Lutar contra suas hordas era perigoso, era sempre uma surpresa o que viria a seguir. Por este motivo, a balança do Conflito manteve seu intacto equilíbrio através das eras. No entanto, houveram exceções, como na história que contarei a seguir.

Mais uma Trégua se passava. As legiões de Belial se reuniam em seus postos na Planície do Conflito. As linhas de demônios desenhadas podiam ser vistas até onde os olhos alcançavam no horizonte, numa paisagem amaldiçoada, dispostos numa ordem diabólica, mas que apenas se manteria até o momento em que fosse dada a ordem inicial e toda aquela disciplina se rompesse e se segregasse num caos absoluto de violência, sangue e insanidade.

Do outro lado do campo de batalha se encontravam as hordas de Lorde Asmodeus. Organizadas como uma só, seus soldados pareciam nitidamente cansados e abatidos. A frente, o comandante: um demônio que eu nunca havia visto. Ele montava uma besta putrefata cuja pele era ausente em alguns pontos e cujos olhos lhe faltavam à face. Não parecia sequer uma criatura viva. Certamente uma alma amaldiçoada e atormentada. O cavaleiro compartilhava com ela o mesmo aspecto, sendo que a pele e a carne de suas mãos haviam sido repuxadas e se encontravam dependuradas próximo aos cotovelos, como uma vestimenta que havia sido arremangada. Suas vísceras estavam expostas e recobertas por muco, sendo que seu aroma repugnante deveria ser o que atraia os abutres que lhe rondavam a cabeça, num círculo maligno, como um daqueles usados para a conjuração das malignas bruxarias. Sua face era como uma pálida máscara ausente de qualquer emoção ou sentimento, fazendo calafrios saltarem até mesmo nos brutos demônios das legiões de Belial. Ele parecia com uma das aves que agouravam a espera de nossa carne. Em sua mão havia um objeto que não sei reconhecer, mas que em nada se parecia com uma arma de guerra: era pequeno e culminava numa ponta longa e fina. Certamente era um oponente fácil de se derrubar em batalha. Bastaria-me um golpe para desmontar seus ossos e espalhar suas tripas ali mesmo, naquele solo maldito onde muitos outros tiveram o mesmo destino e alguns ainda apodreciam.



O sinal foi dado de ambos os lados. As tropas avançaram num estouro que era como o som de mil vulcões em erupção. O solo tremeu, assim como o Inferno o fez. O choque aconteceu como que entre duas muralhas de aço e uma nuvem de poeira se ergueu maculando a visão, logo se tingindo em tons carmesim.

Durante a batalha, os soldados de Asmodeus mostraram ser real seu estado aparente:  cansados, lentos, sendo facilmente derrubados. Seus reflexos estavam atrasados e mal podiam responder com precisão às mais pífias investidas. Foram aniquilados. Nossa legião penetrou à horda como uma lâmina atroz rasga a carne de um condenado indefeso, transpondo tudo o que se oponha ao seu movimento. Certamente seria uma vitória, talvez a mais fácil em toda história do Conflito. Os centuriões já comemoravam o contentamento dos Legados que ao longe apenas observavam o embate.

[Ren] - Você não acha estranho? - Disse, mas sem parar na batalha. Suas mãos se uniram à sua frente e depois se abriram e delas emergiu um trovão tão vermelho quando o fogo das forjas infernais que logo varreu uma centena de infelizes à sua frente, fazendo levantar o cheiro de suas carcaças queimadas.



[Katsuo]  - Estranho?! - Enquanto golpeava mais um, cortando-lhe o peito, depois um braço e por fim a cabeça.

[Ren] - Sim. Não vi mais aquele cavaleiro.

Porém, estive distraído demais com o sangue que tingia mais e mais a paisagem. Nós esmagamos, pisamos, destruímos cada um de nossos adversários. No final, restaram apenas corpos esfacelados, pedaços de carne e vísceras espalhados como os restos de um festival funesto e macabro. A vitória era nossa! Estávamos felizes! A comemoração foi tida como nunca e percorreu por um longo período enquanto éramos recompensados com tudo o que pudéssemos comer. Lembro que minha barriga doía, quando, por fim o nevoeiro da euforia se dissipou. Um sopro de desconfiança percorreu meu peito, abrindo nele um furo oco e incômodo que me levou numa busca.

Algo estava errado. Eu precisava encontrar meu companheiro. Então parti. Mas a procura não seria fácil. No caminho, porém, surgiu ante aos meus olhos o retrato que era como um presságio do que estava a acontecer: em meio à multidão da Cidadela de Ferro, haviam alguns demônios jogados aos cantos sem fôlego ou ânimo para sequer se mover, como se suas almas amaldiçoadas houvessem, de alguma forma, sido drenadas ou arrancadas a força de dentro de suas carcaças. Eles apresentavam algumas feridas purulentas que escorriam pelos seus corpos que por si só já eram asquerosos. Havia um leve cheiro putrefato levantando no ar, mas nada daquilo me fez suspeitar, uma vez que eu já estava acostumado a ele.

Percorri os mais profundos becos e escalei as mais altas torres na busca de Ren. Já estava bem longe de onde os soldados comemoravam, num lado oposto ao do campo de batalha. Por fim o encontrei enquanto ele mirava o vazio do Desolado. Ele estava posto sentado, com as pernas cruzadas sobre o teto de uma construção bem alta, à sombra da Fortaleza. Sua expressão demarcava pensamentos profundos, mas detalhe este ao qual eu ignorei por completo.

[Ren] ...

[Katsuo]  - O Desolado... não há muito o que ver lá. - Me pondo sentado ao seu lado. Para ele, não fui uma surpresa, sendo que continuou na mesma postura e calma.

[Ren] - Talvez... - Em tom sereno.

[Katsuo]  - Bestas insanas devoradoras de carne. Dizem que é esse o destino de quem se aventura por lá. Tch! Nada diferente do nosso! Hehehe! - Tentei animar as coisas.

[Ren] - Mesmo assim, qual o sentido desta batalha?! Talvez seja melhor a morte no Desolado, sem que ao menos haja o peso desta tirania sobre as nossas costas.

[Katsuo] - He! Você é estranho, Ren. Todo mundo é assim lá de onde você veio? E de onde mesmo você veio? - Me dando conta de que nunca falamos sobre isso.

[Ren]- Deixa pra lá... Por que mesmo você está aqui? A comemoração não estava boa?

[Katsuo] - Não é isso. Eu só fiquei pensando sobre o que você me falou durante a batalha. O que você acha que aconteceu com aquele cavaleiro? Ele parecia ser bem importante. Será que fugiu ou será que alguém derrubou ele longe dos nossos olhos?

[Ren] - ... - Um minuto de silêncio se sucedeu entre nós, enquanto meu companheiro recolheu suas pernas e se pôs a abraçar seus joelhos. - Eu só não tenho uma boa sensação sobre isso...

E continuamos a conversar sobre muitas coisas. Ren gostava de falar sobre a liberdade. Acho que nunca o entendi direito. Mesmo assim, gostava de ouvir enquanto mirava aquele céu encoberto por aquela barreira cinza e que parecia tão pesada quanto o ferro sobre o qual me deitava. Então nossa tão escassa tranquilidade foi de súbito interrompida quando alguma coisa dentro do meu peito me fez um incômodo tão grande que fui obrigado pelos meus próprios impulsos a tentar expeli-la, tossindo, revelando pequenas gotas de sangue sobre a palma da minha mão.

[Katsuo] - Droga! Já era para ter curado isso. Pelo visto me machuquei mais do que imaginava. Que droga!

[Ren] - Ei, Katsuo! - Seu olhar era de preocupação. Eu não sabia bem o que aquilo queria dizer, porque nunca havia sido tocado por tal sentimento. Então simplesmente não fiz nada ou tentei evitá-lo enquanto ele continuou. - Você está bem? Isso não está certo. Vamos procurar um curandeiro!

[Katsuo] - Esquece isso! Já passou, viu? Já lidei com coisas bem piores, você sabe. Eu só não me lembrava de ter me ferido dessa forma.

[Ren] - Eu já disse! - Se levantou abruptamente. - Vamos ao curandeiro.

[Katsuo] - Feiticeiros... acham que tudo se resolve com magia. Tsh!

Mesmo em objeção, acabei por acatar sua opinião. Eu acho que, bem lá no fundo, eu gostava do jeito que ele parecia se importar. Não queria perder isso, por isso não podia desapontá-lo. Talvez esse tenha sido o motivo de segui-lo daquela vez. Eu reclamei o caminho todo, entretanto. Não achava que precisava de nenhum esquisito a bisbilhotar meu corpo.

Seguimos pelas ruelas escuras e, por vezes, úmidas. Era um lugar decadente. A pobreza era seu retrato. Porém, da vez em questão, tudo estava diferente e ainda pior: para todo lado que olhávamos havia um moribundo caído e gemendo. O que era aquilo? Será que todo mundo, de repente, tinha bebido demais? Eu temia que não. Ren não disse uma palavra, embora seu olhar marcasse espanto e temor.

Adentramos ao covil do feiticeiro que se auto-denominava Korlak, O Puro. Pude encontrar lá todo tipo de excentricidade que poderia esperar de alguém de sua classe. Haviam pequenos ossos de todos os tipos pendurados ao forro da construção que eram amarrados com o que pareciam mechas de cabelo, sendo que estas haviam de todas as cores possíveis. Pude notar alguns chifres entre eles. Receei que ele pedisse os meus em troca do serviço. Se fosse o caso, eu arrancaria um daqueles pendurados e enfiaria em sua garganta até que saísse noutro lugar qualquer. Existia também muitos vidros com criaturas ou partes empilhados, muito cobertos de pó para que se pudesse de fato definir o que eram. O cheiro era pior que o lá de fora. Era desagradável. Não via a hora de sair dali.

[Ren] - Korlak! - Chamou, dando a impressão até de que se conheciam.

[Katsuo] - Esse asqueroso, aposto que está fazendo algo desagradável e nojento com um cadáver qualquer.

[Ren] - Shh! Fale mais baixo ou então se cale. Se ele ouvir essas coisas, não vai querer te ajudar ou vai te dar veneno no lugar do remédio. - Fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente. - Você só me traz problemas.

Vasculhamos todos os cômodos em sua procura. Quanto mais adentrávamos, pior ficava o odor. Além disso, eu já começava a sentir minhas pernas enfraquecerem, conforme elas também eram envolvidas numa dor que era como se meus ossos estivessem se lascando, mas certamente nada com o que eu não poderia lidar.

[Ren] - KORLAK, SEU MALDITO! RESPONDA! EU SEI QUE VOCÊ NUNCA SAI DESSE BURACO!

[Korlak] - Hmmmmmmmm... - Apenas seu gemido baixo foi ouvido pelo lugar.

Nós o procuramos seguindo o som. Eu tinha certeza que minhas ideias pervertidas se tornariam o retrato da realidade quando o encontrássemos, mas, para minha surpresa e terrível decepção, não foi o que aconteceu. Antes fosse... Korlak estava jogado ao chão. Seu corpo estava recoberto por feridas inchadas que ameaçavam explodir e espalhar seu conteúdo grudento pelas paredes. Sua aparência era de dor. Ele estava amargamente doente.

[Ren] - Korlak! O que aconteceu?

[Korlak] - Ren... a mancha me pegou... hmmm... esse aí também. Você não. Não toque no sangue... hmmmmm... saia! É tarde para mim.

Saímos imediatamente, assustados. Se Korlak, o curandeiro mais poderoso que havia na Cidadela de Ferro havia sido tocado por aquela mancha maligna que até então desconhecíamos, o que seria de nós?

[Katsuo] - Arg! O que foi isso? O que ele quis dizer quando falava de mim?

Ren me respondeu apenas com um profundo e tenso silêncio. Eu sabia exatamente o que isso significava, entretanto. Por isso não fiz mais perguntas. Caminhamos alguns instantes completamente sem rumo, apenas horrorizados com as cenas que se colocava à nossa frente. Estava cada vez pior. Alguns demônios vinham até nós pedindo socorro, enquanto seus membros se desprendiam ou suas faces encontravam-se irreconhecíveis!

[Ren] - Eu sabia. Foi uma armadilha de Asmodeus. Aquela horda cansada foi apenas para nos tocar com essa maldição... Não podemos ficar aqui!

[Katsuo] - Você não pode... - Após algum tempo pensativo.

[Ren] - Como assim?!

[Katsuo] - Você ouviu o que ele falou. Eu também estou com isso, seja lá o que for... Faz todo sentido agora: você não foi tocado porque só atacou de longe, não se sujou com o sangue em batalha. Você tem que ir! Vá! - Interrompi minha caminhada. Acho que pela primeira vez entendi um pouco de como Ren me olhava.

[Ren] - Seu idiota! Eu não vou te deixar aqui para apodrecer como esses moribundos! E outra coisa: eu também faço parte da legião de Belial. Não vou ficar parado enquanto a horda maldita daquele Asmodeus marcha para nossa destruição. Não entende?!

Os portões da Fortaleza de Ferro, que podiam ser vistos de onde estávamos, foram, então, fechados. O ranger do metal ecoou por toda a cidade e foi seguido por um silêncio mórbido, confirmação de que todos sabiam o seu significado: havíamos sido abandonados. Fomos largados do lado de fora sem nenhuma esperança, para que nossa carne se abrisse e se rompesse espalhando nossas vísceras até a nossa morte, sem qualquer intenção de nos ajudar. Não poderíamos esperar nada diferente, entretanto.

[Ren] - Hump! Já estava demorando. - Seu olhar se perdeu por um breve instante, como se sua alma percorresse outro mundo naquele ínterim. Com meu corpo pesado, apenas aguardei. - Eu tenho uma ideia, mas acho que você não vai gostar nada, nada.

[Katsuo] - Lá vem você. Tudo bem. Eu sempre acabo seguindo o que você diz mesmo.

[Ren] - Hehehe! E nós sempre nos damos bem, você tem que admitir. - Torci minha boca, mas apenas para ele não ficar se achando demais. - Então: vamos ao Desolado! Conheço um lugar. Acho que é nossa única alternativa.

[Katsuo] - O quê?! Você está querendo nos matar antes que isso o faça, isso sim. Ah! Tudo bem. Aonde você quiser.

Ren estava louco! No meu estado, era uma idiotice adentrar ao Desolado. Ele era poderoso, mas  não o suficiente para nos proteger para sempre. Esperava, sinceramente, que ele não fosse um tolo. Torcia no mais fundo da minha alma negra e corrupta que ele realmente tivesse um plano. Sabe, eu não queria virar alimento para uma fera. Se bem que já começava a achar este destino melhor do que simplesmente apodrecer ali.

Partimos, então. O Desolado era uma região misteriosa, não possuía os rios de magma e era como um grande deserto de terra tão dura e compacta que se parecia pedra. Fissuras se espalhavam pelo chão e se abriam e fechavam em diversos tamanhos. Ossos empilhados não eram raros, e eles todos carregavam irrefutáveis marcas de violência. Eventualmente, uma caverna ou outra revelava sua garganta para nós. Era tentador, de certa forma. Eu não podia imaginar o que havia lá embaixo.



Meu corpo ficava mais e mais cansado. Eu sentia minha temperatura subir. Sentia minhas pernas doerem. Sentia que logo não mais seria capaz de prosseguir. Seria aquele meu fim? Talvez Ren estivesse ao meu lado quando o momento chegasse. Nunca havia pensado sobre isso, mas eu gostaria que ele estivesse...

Olhei para minhas mãos. As primeiras manchas avermelhadas brotavam nelas e ardiam como ácido a corroer minha pele. Senti medo. Lembrava daqueles corpos desfigurados jogados nos cantos da Cidadela. Senti calafrios. Não queria ficar como eles. Não queria perder minha beleza. Eu sabia que ela já tinha me rendido muitos apuros, mas conhecia também a sensação de euforia que vinha em batalha quando meus inimigos, fascinados e atônitos pela minha imagem, receavam um instante que era apenas o suficiente para que eu lhes cortasse a garganta e encerrasse para sempre suas caras de espanto. Doces momentos.

De volta de meus devaneios, me deparei com dezenas de passagens para o submundo que nos cercavam. Aquele lugar ere diferente, sem dúvidas. Não podíamos mais ver a Fortaleza de Ferro dali. Apenas uma longa trilha dos nossos próprios passos, como que ecos do passado recente e que ficariam marcados naquele terreno maldito por eras. Respirei fundo. Precisei parar.

[Ren] - Não falta muito. É uma destas passagens, eu tenho certeza. Só me resta lembrar qual é. - Pensativo enquanto mirava cada uma delas.

[Katsuo] - Espero que lembre logo. Não aguento mais meu próprio peso.

Ele continuou analisando, enquanto me pus sentado ao chão. De repente, achei ter sentido algo como uma vibração, talvez. Pensei estar delirando. Mas então se tornou mais forte e depois o som de muitos passos puderam ser ouvidos. Eram centenas deles! Ren imediatamente correu para o meu lado e me ajudou a levantar. Empunhei minhas espadas, mas que eu mal podia segurar. Ele igualmente se colocou em posição de combate. Entretanto, seria inútil naquele momento, pois o que se revelou na nossa frente era um bando de Tentáculos Brutais que deveria facilmente exceder o número de cem. Grunhiam enquanto se preparavam para a investida.

Não tínhamos chances. Essas criaturas são conhecidas por sua força intensa e pelos tentáculos que emergem de suas costas. Além disso, possuem uma grande protuberância no maxilar inferior que usam para empalar suas presas antes de devorá-las. Já foram usadas por Belial em sua legião, certa vez, mas foram deixados de lado por conta de sua natureza agressiva demais e que sempre acabava rendendo confusões. São inimigos implacáveis!



[Ren] - Maldição! - Praguejou.

Meu companheiro então se deu conta de meu estado. Ele sabia que eu não poderia lutar, por isso iniciou imediatamente um plano diferente: desenhou no ar, que se inflamava com o traçado, alguma coisa estranha que eu era incapaz de reconhecer. Estávamos cercados. As criaturas agora faziam um círculo que se cerrava mais e mais ameaçando nos esmagar. Os Brutos  balançavam seus tentáculos rosados, como que cumpridas línguas, ao vento e salivavam como que já sentindo o nosso sabor. Ren rapidamente desenhou um círculo muito complexo e sussurrou também algumas palavras. As bestas então investiram, mas foram surpreendidas pela terra que tremeu e pela coisa que dela emergiu como que expelida do próprio ventre do Inferno: era uma besta grotesca e flamejante, sem olhos e mal formada, certamente resultado da evocação falha e apurada. Possuía asas e uma cauda que terminava numa enorme mandíbula. Tinha dois pares de chifres na cabeça e carregava uma espada quebrada, mas que, ainda assim, fez um grande estrago nos inimigos quando ele a meneou em círculo jogando pilhas de carcaças esfaceladas para todos os lados.



[Ren] - Vamos! Não temos muito tempo!

Guiou meu caminhar até a boca de uma caverna. Meu fôlego estava bem escasso àquela altura. Sentia como se meus pulmões fossem, a qualquer instante, jorrarem pela minha boca. Ainda assim, eu estava contente, mesmo que não morrer ali pudesse me render uma trajetória muito mais intensa em sofrimento e regada de angústias extremas que fariam brotar no meu coração o mais ardente desejo pelo fim. Eu estava feliz. E não tinha a certeza do motivo... Ren estava nitidamente exausto. O feitiço que acabara de conjurar havia lhe drenado mana demais. Entretanto, não desistia de ajudar a me locomover.

Mergulhamos, então, nas profundezas sinistras e escuras daquela passagem. Quanto mais penetrávamos às entranhas do Inferno, mais próximos de seus pesadelos nefastos nos encontrávamos. Era a impressão que eu tinha. Naquele ponto, eu já não podia mais sequer falar. O que se passava frente aos meus olhos era uma mistura horrenda de realidade, delírio e alucinação. Eu imergi ao abismo da loucura. Primeiro foram ruínas. Haviam inscrições nas suas paredes que eu podia visualizar enquanto passávamos. Depois as paredes se tornaram vivas, fervilhavam e se retorciam, recobertas por corpos malformados de coisas que tentavam nos agarrar com seus braços contorcidos. Seus choros e gemidos penetravam à minha cabeça e expulsavam todos os outros pensamentos, enquanto pululavam e brotavam como sementes aberrantes de maledicência. Eu poderia partir cada uma, não fosse meu estado.

O que se seguiu adiante foi ainda mais incrível do que aquilo que acontecia, e depois me pôs em dúvida minha sanidade. As ruínas ficaram escuras e tão densas quanto a aura de um abissal. As paredes começaram a ruir  e se esfarelar e então tudo veio abaixo. Eu não podia ouvir a voz de Ren, mas podia ver seus lábios se moverem em desespero. Ele correu. Eu caí. Entretanto, ele voltou para encontrar junto a mim a morte fria e desamparadora, enfim. Mas não foi isso que aconteceu...

Quando a última pedra gigante terminou de despencar sobre nossos corpos eles não estavam esmigalhados. Nós estávamos noutro lugar, como se a realidade houvesse se rompido e nos expulsado de seu ventre  como uma abrupta lufada de vento repentina, mas meus pulmões não estavam revigorados. Eu sentia que havíamos adentrado ao coração daquelas ruínas. Tudo tinha o mesmo aspecto, ao menos. A construção, as escrituras entalhadas na carne de cada pilar, de cada parede, de cada degrau. Tudo era muito similar: as escuridão e a aura sinistra e gélida que pairava sobre nossos espíritos perdidos e amaldiçoados. Seria este o objetivo de Ren o tempo todo? Se fosse, como ele conhecia tudo aquilo?

Nós não estávamos sós, entretanto. Bem a nossa frente estava ele, o Oráculo, flutuando no ar e envolvido numa bolsa luminosa que não iluminava,  mas apenas afastava toda e qualquer outra fonte de luz, como se as combatesse. Seu aspecto era mórbido e demoníaco, mas quem éramos nós para falar algo sobre isso?! Além da sua boca, cujos dentes e gengiva ficavam a mostra, havia mais uma camada dos mesmos sobre seu peito, que eram como uma mandíbula enorme e circular que se abria e expulsava a cabeça, como uma língua. No seu quadril havia também uma boca muito semelhante a que ele trazia na face e, para concluir, dois tentáculos se enroscavam e dançavam acima e terminavam também com mais duas de aspecto faminto e furioso. Seu corpo era repleto de furos e tubos que me davam a impressão de serem ouvidos ou talvez até narinas.



[Oráculo] - Quem são aqueles que adentram às profundezas de meu santuário?

Nenhuma boca se moveu para proferir aquelas palavras. Ao invés disso, uma centena de sibilos macabros surgiam de todos os lados, de cada confim, e cresciam em tom até culminarem na sua voz, que parecia o ranger de mil portas velhas de madeira, do tipo que está prestes a se desprender de suas dobradiças enferrujadas. Depois ecoavam e diminuíam indo se extinguir da mesma forma como nasciam. Não dava para definir exatamente de onde vinha aquela frase solta no ar, de forma que pareciam emergir do interior de nossas cabeças.

[Oráculo] - Não respondem, - estávamos atônitos - mas sua resposta não se faz necessária. Nada escapa aos meus ouvidos neste mundo e nos outros. Não existe nada que eu não saiba ou conheça que a própria existência não tenha me contado.

[Ren] - Então sabe o que viemos buscar... - Hesitante.

[Oráculo] - O que vocês vem buscar, eu conheço. Entretanto, estariam vocês preparados para encontrar com a ciência que jaz nos labirintos de sua própria loucura?

Ren se ergueu e deixou o meu lado. Era angustiante ficar ali sozinho, mesmo que ele sequer tivesse fugido de minha visão. Era como se eu fosse ser devorado a qualquer instante pelo próprio escuro ao meu redor, que eu sentia como se densificasse cada vez mais, instante após instante. Ele caminhou, firme e confiante, talvez até desafiante, até a frente do Oráculo. Então se pôs de joelhos.

[Ren] - Estou pronto.

[Oráculo] - HAHAHA!

Aquelas risadas diabólicas ecoaram por uma eternidade, como se o próprio universo as estivesse a produzir. Depois o Oráculo moveu seus dois tentáculos que abriram suas bocas e uma delas mergulhou nas profundezas de sua garganta a cabeça de Ren, enquanto a outra abocanhou seu peito e nele ficou grudada. Eu ergui minha mão vagarosamente e sentia como se espinhos alojados em cada junta minha encravassem com cada sutil movimento. Não podia ajudar, entretanto. Temi pela vida do meu companheiro, mas nada podia fazer a não ser observar. Um tempo infindável então se passou naquele silêncio, até que um sono persecutório e atroz lutou até que por fim houvesse me vencido.

Eu dormi um sono sem sonho algum. Experimentei um vazio tão intenso quanto deveria ser a morte verdadeira ou como seria vagar ao Esquecimento. Quando acordei, havia perdido a noção de quanto tempo fiquei ali. Mas um segundo sequer parecia ter passado. Estávamos jogados sobre a pedra que era para nos ter esmagado. Eu estava curado. Sentia minhas forças revigoradas e de volta a cada pequeno canto do meu corpo. Meu amigo estava sem consciência. O trouxe aos meus braços, então, e carreguei até o lado de fora daquelas ruínas, que, desta vez, não me perturbaram ou confundiram com suas ilusões. Do lado de fora, vi a pilha de corpos dos demônios que tentaram nos matar e também da criatura que Ren evocara. Talvez eu tenha adicionado mais alguns a ela. Segui em silêncio pelos desertos do Desolado, rumo à Cidadela.

Quando Ren acordou, nunca mais falamos sobre o que aconteceu lá embaixo. Possuindo a cura, ele foi capaz de livrar cada alma de sua angústia e salvar as legiões de Belial e todos os seus comensais miseráveis. Entretanto, não assumiu os créditos de tal feito, relegando-os, colocando-os sobre minhas costas. Preferiu o anonimato e a discrição, sem se importar com recompensas. Eu estava grato mais uma vez. Além de minha vida, recebi como prêmio uma armadura que dizem ter sido forjada pelo próprio Lorde. Junto a ela, acompanharam duas lâminas que me serviam e intensificavam meu poder em batalha. Dizem que elas possuíam até mesmo uma alma. Fui promovido a centurião, mas posição essa que logo perdi por minha incapacidade em manter meus servos a salvo. Eu era, afinal, um peão fadado a estar para sempre jogado nas linhas de frente, trabalho este que eu amava e desejava com cada centímetro do meu coração. Sobre o Oráculo, ouvi lendas de que ele era mais antigo que o próprio Inferno, e que era impossível encontrá-lo, a menos que ele o encontrasse. Nunca mais quis pensar sobre isso, então.

_________________
Katsuo | Força:[E] | Energia:[F] | Agilidade:[E] | Destreza:[C] | Vigor:[B]
M.O.: 0 | Ficha
avatar
Katsuo

Pontos de Medalhas : 100
Mensagens : 132
Idade : 29
Localização : Arena Ossorange

Ficha Secundária
Título:
Lvl: 8
Raça: Demônio

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum